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Opinião

O indicador que ninguém sabe usar ainda não ajuda a gerir

Lucas Atanazio · 5 de outubro de 2026
DEFINIÇÃO → DECISÃO → REVISÃO
Esquema conceptual da análise; não representa dados medidos.

Imaginemos uma reunião de responsáveis de uma rede. O ecrã está cheio de gráficos e a conversa começa com a mesma pergunta: «Quem ficou abaixo?» Há nomes a vermelho, nomes a verde e uma classificação que parece resolver o assunto. Até alguém perguntar o que aconteceu na unidade que vendeu mais. Vendeu melhor? Entregou a tempo? Conseguiu servir os clientes sem acumular trabalho que vai cair sobre a semana seguinte? De repente, o quadro que parecia tão claro deixa de explicar a operação.

Um indicador merece espaço numa reunião quando ajuda alguém a tomar uma decisão. Se apenas permite encontrar um culpado ou decorar uma apresentação, está a ocupar o lugar de uma pergunta que ainda não fizemos. A gestão precisa de informação, mas também precisa de saber para que a está a pedir. Recolher tudo pode ser uma maneira muito trabalhosa de continuar sem escolher nada.

Numa rede de franchising, esta distinção ganha força porque a central e as unidades não veem o mesmo pedaço do trabalho. Quem acompanha várias operações procura padrões. Quem abre a porta de uma unidade enfrenta pessoas, atrasos, encomendas e acontecimentos locais. Uma boa leitura tem de aproximar essas duas perspetivas. Se uma elimina a outra, a rede perde capacidade de perceber o que está realmente a acontecer.

Começar pela decisão que está em falta

Antes de acrescentar um número ao relatório semanal, pergunto qual é a decisão que ele pode alterar. Precisamos de ajustar o abastecimento? De reforçar uma competência da equipa? De rever a promessa feita ao cliente? De investigar uma quebra que ainda não compreendemos? Cada pergunta pede uma informação diferente. O mesmo total de vendas não responde, sozinho, a todas elas.

Pensemos numa unidade hipotética que recebe mais pedidos e termina o dia com mais reclamações. Aumentar a promoção pode agravar o problema. Antes de recomendar mais procura, interessa perceber onde a entrega está a falhar. Talvez o atendimento aceite um prazo que a preparação não consegue cumprir. Talvez o produto chegue, mas sem uma informação essencial. O número abre a investigação; não escolhe automaticamente a solução.

É por isso que prefiro um conjunto pequeno de indicadores ligados a decisões identificáveis a um painel extenso que ninguém consegue discutir. Pequeno não significa superficial. Significa conseguir explicar a origem do dado, a sua limitação e a ação que poderá justificar. Quando um responsável não consegue fazer essa ligação, vale a pena rever a utilidade da medição antes de pedir mais trabalho às equipas.

Comparar exige saber o que estamos a contar

Duas unidades podem chamar «pedido concluído» a situações diferentes. Numa, basta ter recebido o pagamento. Noutra, é necessário ter realizado a entrega. Se juntarmos os totais sem esclarecer a definição, criamos uma comparação aparentemente rigorosa sobre realidades diferentes. A primeira tarefa é combinar o significado da informação, incluindo o momento em que entra no registo e a forma de tratar correções.

Também não compararia automaticamente uma unidade em abertura com outra estabilizada, nem um período normal com uma semana marcada por interrupções locais. Isto não é um pedido para justificar qualquer resultado. É uma condição para atribuir responsabilidade de forma útil. A explicação deve poder ser confrontada com registos, e a exceção não deve tornar-se uma desculpa permanente para nunca aprender com a diferença.

Há ainda dados que chegam tarde. Uma reclamação registada hoje pode referir-se a uma entrega anterior. Um pedido cancelado pode ter sido contado como venda numa versão preliminar. O painel precisa de mostrar o período a que cada informação se refere. Sem esse cuidado, uma melhoria aparente pode ser apenas a deslocação do problema entre duas semanas.

A frequência acompanha o tempo da decisão

A reunião semanal pode organizar a atenção, mas não determina a urgência de todos os assuntos. Um problema que impede a operação exige uma resposta quando aparece. Uma mudança de preferência dos clientes pode exigir um período maior para ser interpretada. Usar a mesma frequência para tudo cria dois riscos: esperar demasiado por uma decisão urgente e reagir depressa demais a uma variação passageira.

Proponho separar o que pede intervenção imediata, o que merece acompanhamento regular e o que ainda está em observação. Esta separação deve ter responsáveis e critérios claros. Uma unidade não pode ficar à espera da apresentação de segunda-feira para comunicar um impedimento grave. Ao mesmo tempo, uma oscilação isolada não deve desencadear uma mudança estrutural sem que alguém tenha confirmado o seu significado.

A disciplina está em combinar o próximo momento de leitura. Se decidimos observar, precisamos de saber o que esperamos encontrar e quando voltaremos ao assunto. Caso contrário, «vamos acompanhar» torna-se uma frase educada para abandonar o problema. Observar também é uma ação, desde que tenha uma pergunta e um prazo coerentes com aquilo que se pretende compreender.

Um bom painel deixa espaço para a conversa difícil

Quem receia ser punido por apresentar um problema pode aprender a apresentar o número de outra maneira. Não é preciso presumir má-fé para reconhecer esse risco. Se a reunião recompensa apenas resultados favoráveis e trata qualquer explicação como fraqueza, a própria organização cria um incentivo para esconder as situações que mais precisam de atenção.

A central deve exigir rigor e, ao mesmo tempo, permitir que uma unidade diga: «Este dado não está certo» ou «A decisão que recebemos não funciona nestas condições». Depois vem a verificação. Ouvir a objeção não é aceitá-la sem análise; é dar à gestão acesso à informação que um relatório sozinho não contém. A responsabilidade continua presente, agora com melhores condições para ser exercida.

No fim da reunião, o indicador deve ter produzido alguma coisa: uma verificação, uma alteração limitada, uma decisão de manter o procedimento ou um pedido concreto de apoio. O responsável fica identificado e a revisão seguinte procura o efeito da ação. Se o mesmo desvio regressa e a única resposta é repetir o gráfico, a reunião ainda não entrou no problema.

Não quero que uma rede saiba apenas quem ficou acima ou abaixo. Quero que consiga distinguir um bom resultado sustentável de um resultado que está a consumir a capacidade de amanhã. Um indicador útil não encerra a conversa com uma cor. Ajuda a fazer a pergunta certa, a escolher uma resposta e a verificar se essa resposta melhorou o trabalho.