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Opinião assinada

Antes de escolher o curso, descreva o trabalho

Lucas Atanazio · 20 de outubro de 2026
Tese, análise e decisão
Esquema conceptual da análise, sem dados medidos.

Imagine uma pessoa à procura de formação para mudar de área. Abre várias páginas, encontra programas interessantes e começa a comparar horas, certificados e nomes de módulos. Falta uma pergunta anterior: que trabalho pretende conseguir fazer no fim? A situação é hipotética, mas expõe uma dificuldade concreta. É possível escolher cuidadosamente um curso sem ter definido o problema que a aprendizagem deve resolver.

Na formação ligada à transição ambiental, eu começaria pelo verbo. Medir, instalar, manter, planear, verificar, explicar: cada verbo pede uma combinação diferente de conhecimento e prática. A expressão economia verde pode reunir interesses legítimos, mas é demasiado ampla para orientar, sozinha, uma decisão de formação. Uma pessoa que quer interpretar consumos não procura necessariamente o mesmo percurso de quem pretende executar uma intervenção técnica.

O primeiro movimento é descrever uma tarefa observável. Em vez de aprender sobre sustentabilidade, por exemplo, perceber que informação é necessária para comparar duas alternativas de funcionamento. O exemplo é deliberadamente genérico: não substitui requisitos de uma profissão, certificações ou aconselhamento especializado. Serve para mostrar como uma intenção ganha contorno quando conseguimos explicar a ação que pretendemos realizar e o contexto em que será usada.

O segundo movimento é olhar para o ponto de partida. Há conhecimentos anteriores, tempo disponível, experiência prática e dificuldades que não desaparecem porque o tema está em destaque. Um programa pode ser excelente e não ser adequado à pessoa naquele momento. Perguntar pelos pré-requisitos não diminui a ambição. Ajuda a construir uma sequência em que a etapa seguinte não depende de uma base que ainda não existe.

Também é importante perceber como se demonstra a aprendizagem. Um teste de escolha múltipla pode verificar determinados conhecimentos; uma tarefa prática pode revelar outras capacidades. O problema não está em preferir um formato por princípio. Está em pedir a cada avaliação que prove aquilo que realmente consegue observar. Assistir a uma sessão, compreender uma explicação e executar um trabalho com segurança são estados diferentes.

Num exemplo hipotético, um participante poderia terminar uma unidade com uma comparação fundamentada entre dois processos, explicitando os dados utilizados, as limitações e a razão da escolha. Outro objetivo exigiria uma demonstração supervisionada ou uma qualificação específica. A formação deve esclarecer essa diferença antes da inscrição. Um certificado que não explica o que foi avaliado deixa demasiado trabalho de interpretação para quem aprende e para quem contrata.

O terceiro movimento pertence às organizações. Quando uma empresa financia formação, deve preparar uma oportunidade real de aplicação. Se o trabalhador regressa e encontra os mesmos bloqueios de acesso, nenhum tempo reservado e nenhuma tarefa compatível, o curso fica à espera de autorização para existir no trabalho. Não basta perguntar se a pessoa gostou. É necessário perguntar que condição a empresa terá de mudar para usar o que pediu que ela aprendesse.

Há uma objeção razoável: nem toda a aprendizagem precisa de utilidade imediata. Concordo. Explorar um campo, ampliar cultura e descobrir interesses também têm valor. O que defendo é clareza sobre o propósito. Um percurso exploratório pode ser assumido como tal. Já uma promessa de preparação profissional precisa de explicar a distância entre o programa, a prática exigida e as condições de entrada numa função concreta.

Eu não escolheria formação apenas pela palavra que está em destaque. Escolheria pela relação entre intenção, tarefa, preparação e demonstração. Depois verificaria os requisitos junto das entidades competentes, quando a atividade os exigir. O curso pode abrir uma possibilidade, mas não deve ser obrigado a provar uma carreira que ainda não aconteceu. Antes de comparar certificados, vale a pena escrever uma frase: no fim, quero ser capaz de fazer isto.

Lucas Atanazio, empresário e fundador da ATNZO.