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Opinião

Quantos jovens uma cidade forma para depois entregar a outros lugares?

Lucas Atanazio Vetorasso · 29 de setembro de 2026

Uma cidade pode oferecer formação e continuar sem criar caminhos para que os jovens utilizem o que aprenderam. Essa distância merece atenção antes de qualquer campanha sobre retenção de talento. Ficar não pode ser uma obrigação emocional imposta a quem procura oportunidades. O trabalho do território é tornar a permanência uma possibilidade real, sem tratar a saída como deslealdade nem o regresso como uma solução garantida.

Eu começaria por cruzar duas perguntas: que competências estão a ser desenvolvidas e que problemas concretos as empresas e os serviços locais precisam de resolver? Uma lista de cursos e uma lista de vagas não chegam. É necessário compreender tarefas, condições de trabalho, possibilidades de aprendizagem e meios para chegar ao emprego. A ligação entre formação e atividade económica precisa de acontecer onde o trabalho efetivamente se organiza.

Dar responsabilidade com acompanhamento

Um jovem pode aprender muito ao participar num projeto real, desde que tenha orientação, condições adequadas e uma responsabilidade compatível com a sua preparação. Não defendo substituir trabalho qualificado por entusiasmo disponível. Defendo criar percursos em que seja possível observar um problema, propor uma resposta, executar uma parte delimitada e receber retorno sobre o resultado.

Um exemplo hipotético e genérico seria uma colaboração entre uma escola e comerciantes para compreender uma dificuldade de atendimento. O projeto poderia mapear o percurso do cliente, identificar informação em falta e testar uma melhoria pequena. Seria necessário definir supervisão, utilização dos dados e responsabilidades antes de começar. O resultado útil não seria apenas uma apresentação final: seria saber o que mudou e o que os participantes aprenderam.

Essa experiência também permite às empresas conhecer competências que nem sempre conseguem avaliar através de um currículo. Mas deve existir reciprocidade. A organização precisa de disponibilizar tempo, informação adequada e acompanhamento. Um território que pede iniciativa aos jovens e não lhes oferece acesso a decisões reais pode produzir frustração em vez de autonomia.

A oportunidade tem de caber na vida

Emprego, habitação, mobilidade e serviços influenciam a possibilidade de permanecer, e é a combinação destas condições que pesa, não cada uma isolada. Uma oportunidade profissional pode perder viabilidade se a pessoa não conseguir deslocar-se ou encontrar habitação compatível com a sua situação. A comunicação sobre talento precisa de reconhecer estas condições materiais.

Também evitaria tratar todos os jovens como um grupo homogéneo. Quem está a terminar a escola, quem já trabalha e quem regressa de outra região enfrenta necessidades diferentes. Ouvir esses percursos ajuda a escolher intervenções mais úteis. Uma solução de formação pode fazer sentido num caso; noutro, o obstáculo pode ser o horário de transportes ou a falta de perspetiva de progressão.

Avaliar o percurso, não apenas a adesão

Eu acompanharia o que acontece depois de cada iniciativa: houve continuidade da aprendizagem? Surgiu uma colaboração ou oportunidade de trabalho? A pessoa encontrou condições para permanecer? Que motivo levou alguém a abandonar o percurso? Os indicadores de inscrições e presenças são úteis, mas não substituem essas perguntas. O objetivo é compreender resultados e corrigir o desenho da intervenção.

Um município, uma escola e uma empresa não precisam de esperar por um grande programa para começar a partilhar informação pertinente e testar uma resposta delimitada. Precisam, porém, de um problema claro, responsáveis e critérios de avaliação. A proposta aqui é um método de trabalho a adaptar ao território, não o anúncio de um programa já executado ou de postos de trabalho criados.

A ambição que me interessa é simples: formar pessoas capazes de escolher o seu caminho e construir lugares que lhes ofereçam escolhas melhores. Uma cidade não retém talento por pedir que fique. Torna-se mais atrativa quando permite aprender, trabalhar, participar e imaginar um futuro que possa realmente acontecer ali. Que percurso concreto, na sua cidade, permite hoje a um jovem passar da formação ao trabalho sem ter de partir?

Lucas Atanazio Vetorasso é empresário, escritor e fundador da ATNZO. Coluna de opinião; as posições são do autor.