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Opinião

Infraestrutura de IA só gera desenvolvimento quando deixa capacidade económica no território

Lucas Atanazio Vetorasso · 29 de setembro de 2026

Objetivo

Proponho aqui uma régua para avaliar investimentos territoriais ligados a inteligência artificial, centros de dados, computação avançada e infraestruturas digitais. A tese é simples: a presença física de tecnologia, por si só, não garante desenvolvimento local. O impacto económico depende da capacidade de ligar a infraestrutura a empresas, pessoas, fornecedores, conhecimento e instituições do território.

1. Acesso das PME

A primeira condição é impedir que a infraestrutura exista como uma ilha tecnológica. Pequenas e médias empresas precisam de caminhos concretos para aceder a capacidade computacional, ferramentas, parceiros e casos de uso. Isso pode acontecer através de programas de demonstração, créditos de utilização, laboratórios aplicados, parceiros técnicos e projetos-piloto orientados a problemas reais.

O indicador não deve ser apenas a potência instalada, mas a quantidade de empresas que transformaram acesso tecnológico em ganho de produtividade, novos produtos ou capacidade exportadora. Pergunta que muda a leitura: quem, no território, consegue de facto usar aquilo que foi instalado?

2. Formação ligada à procura real

Formação sem destino profissional produz certificados; formação ligada à procura produz capacidade. O desenho territorial deve mapear as funções que serão efetivamente necessárias: operação, manutenção, segurança, redes, dados, energia, suporte técnico, gestão de projetos e integração de sistemas. A oferta formativa deve nascer dessa procura e ser atualizada em diálogo com quem opera a infraestrutura.

Indicadores úteis incluem a taxa de conclusão, a colocação profissional, a retenção no território e a progressão salarial. Se os formados partem para outro lado assim que terminam, o território financiou a capacidade de outros.

3. Fornecedores locais na cadeia de valor

Grandes projetos podem movimentar muito capital e deixar pouco valor local quando compras, manutenção e serviços são contratados quase integralmente fora do território. Imagine-se, de forma genérica, uma obra de grande escala em que a construção, o equipamento, a manutenção e os serviços de apoio são adjudicados a empresas de outras regiões: o investimento é visível, mas o rendimento gerado circula noutro sítio.

É necessário mapear antecipadamente que categorias podem ser fornecidas localmente e que empresas precisam de qualificação para entrar na cadeia. A métrica relevante é a proporção de compras e contratos que permanece na economia local, distinguindo despesa pontual de relações recorrentes.

4. Energia como vantagem e não como gargalo

Infraestrutura intensiva em computação depende de energia previsível, competitiva e resiliente. O território precisa de avaliar a capacidade da rede, a redundância, a origem da energia, as necessidades futuras e o impacto sobre outros consumidores.

A discussão não pode limitar-se a “há energia disponível hoje”. Deve perguntar se o crescimento do projeto é compatível com o crescimento da economia envolvente e se existem mecanismos para evitar que a infraestrutura dispute recursos de forma desordenada.

5. Água e recursos físicos com transparência

Projetos tecnológicos também têm pegada física. Dependendo da arquitetura, a refrigeração e a operação podem exigir recursos relevantes. O princípio deve ser a transparência: consumo projetado, tecnologia utilizada, mecanismos de eficiência, reutilização quando aplicável e planos de contingência.

O desenvolvimento territorial perde legitimidade quando os benefícios são apresentados de forma abstrata e os custos físicos ficam invisíveis.

6. Emprego qualificado e carreiras

Contar postos de trabalho é insuficiente. É preciso distinguir construção temporária, operação permanente, empregos diretos, indiretos e funções de alta qualificação. Um projeto cria capacidade territorial quando gera carreiras, não apenas vagas.

Isso exige trilhos de entrada, formação contínua, ligação a escolas e universidades, estágios e mecanismos para que profissionais locais avancem para funções de maior responsabilidade.

7. Transferência de conhecimento

A camada mais valiosa é aquela que permanece mesmo que o ativo mude de proprietário ou de estratégia. O território deve procurar mecanismos de transferência de conhecimento: laboratórios conjuntos, programas com universidades, desafios com PME, documentação de boas práticas, certificações, investigação aplicada e participação de equipas locais em projetos relevantes.

O indicador é a quantidade de capacidade autónoma criada, não apenas a presença de especialistas externos.

Régua de avaliação

Antes de classificar um investimento de IA como projeto de desenvolvimento territorial, convém responder a sete perguntas: quantas PME terão acesso real? Que competências serão formadas para vagas concretas? Que parte da cadeia de fornecimento ficará no território? A infraestrutura energética suporta a expansão? O uso de recursos físicos é transparente e eficiente? Os empregos criam carreiras? Que conhecimento permanecerá localmente?

Estas perguntas devem transformar-se em indicadores com linha de base, meta, responsável, frequência de medição e evidência. Sem isso, o debate fica preso ao valor do investimento e perde a capacidade de medir o valor económico efetivamente retido.

Verificação antes de ampliar o projeto

Uma proposta de infraestrutura deve distinguir capacidade instalada, utilização prevista e benefício efetivamente observado. Equipamento disponível não demonstra que empresas locais o estejam a utilizar, nem que tenham melhorado processos. A avaliação precisa de começar pela necessidade concreta e de acompanhar o trabalho que muda depois do acesso à tecnologia.

Eu definiria um ensaio com uma organização participante, um problema delimitado e um responsável pelo acompanhamento. Antes do início, registaria o percurso atual, as dificuldades e os critérios de melhoria. Durante o teste, observaria a qualidade da informação, o esforço de formação e a capacidade da equipa para verificar resultados. No final, compararia o que aconteceu com a hipótese inicial.

A decisão de ampliar dependeria dessa aprendizagem e dos meios necessários para a sustentar. Um território ganha capacidade quando consegue utilizar, manter e desenvolver o conhecimento associado à infraestrutura. Esta é uma proposta de análise; não corresponde à descrição de um laboratório em funcionamento, de investimento captado ou de resultados já medidos.

Conclusão

A infraestrutura tecnológica é importante, mas o ativo estratégico de um território não é o edifício, o servidor ou a capacidade computacional isolada. É a rede de competências, empresas, fornecedores e conhecimento que cresce à volta dessa infraestrutura.

O melhor projeto não é apenas o que chega com mais capital. É o que deixa mais capacidade. E, no seu território, quem ficaria mais capaz daqui a uns anos, se este investimento avançasse hoje?

Lucas Atanazio Vetorasso é empresário, escritor e fundador da ATNZO. Coluna de opinião; as posições são do autor.